Visitando Auschwitz – Birkenau

Você já pensou em visitar um Campo de Concentração? Aqueles da época do nazismo? Arrepia só de pensar né? Pois hoje o Sozinha pelo Mundo vai te contar um pouco sobre esse lugar cheio de história, e com muitas fotos.

Eu sempre tive muito interesse em ler sobre a Segunda Guerra Mundial, e especificamente sobre o Nazismo e o Holocausto. Então quando fui a Polônia, visitar Auschwitz era minha prioridade.

Um pouquinho da história de Auschwitz

O Campo de Concentração de Auschwitz foi criado pelos alemães em 1940 na cidade polonesa de Oświęcim. Eles mudaram o nome da cidade assim como batizaram o primeiro Konzentrationslager (Campo de Concentração) de Auschwitz.

Inicialmente este Campo foi criado para receber os presos políticos poloneses, que já não cabiam nas prisões locais. Em sua maioria os prisioneiros eram judeus, poloneses e ciganos. Nessa época este era apenas um campo de Concentração. A partir de 1942, passou a funcionar também como um Campo de Extermínio. Muitos judeus foram trazidos para este local de forma a implementar a destruição do povo judeu da Europa ,que era a proposta por Hitler (Solução Final).

O primeiro campo e o principal, conhecido como Auschwitz I recebeu em média 15.000 pessoas. Em 1942 construíram um segundo campo próximo ao primeiro, o campo Birkenau, chamado de Auschwitz II. Este campo chegou a ter 90.000 pessoas em 1944, e 90% de todas as mortes nos campos de Auschwitz aconteceram em Birkenau, aproximadamente 1 milhão de pessoas. A maioria esmagadora dos mortos eram judeus, mas também morreram cerca 70 mil poloneses, 20 mil ciganos, soviéticos e prisioneiros de outras nacionalidades. Eram homens, mulheres e crianças; ricos e pobres; médicos, engenheiros, professores, donas de casa…

Em 1945, quando o Exercito Vermelho cruzou o rio Vístula, os alemães começaram a evacuar os campos, transferiram presos remanescentes para campos de trabalhos forçados no interior da Alemanha, e destruíram grande parte de Birkenau (Auschwitz II), na tentativa de eliminar rastros dos crimes ali cometidos. Queimaram documentos e destruíram os crematórios. Em 27 de janeiro de 1945, os soldados soviéticos abriram os portões dos campos e liberaram os sobreviventes.

Este foi um micro resumo da história deste lugar. Usei como fonte o site do Memorial e Museu de Auschwitz-Birkenau. Se você quiser se aprofundar, o site tem muita informação e fotos.

Auschwitz gate
Arbeit Macht Frei – O trabalho liberta

Planejando a visita a Auschwitz

Ingressos

Você até pode comprar um passeio completo com transfer e ticket já na Polônia. Mas você também pode fazer tudo por conta própria.

Os passeios vendidos pela agência incluem o tour geral que dura 3,5 horas. Você pode pensar que é muito tempo, mas não é não. Tem muita coisa para ver, e você precisa pegar um ônibus (incluso no ticket) até o campo de Birkenau.

Eu fiz o tour de estudo de 1 dia, com duração de 6h. Parece um exagero, mas vou te dizer que o tempo voou. Achei esse tour o ideal. Para os historiadores ou pessoas ainda mais interessadas nas histórias dos campos, exitem tour de estudo de 2 dias (4h cada dia).

O site recomenda comprar os ingressos para as visitas guiadas com 2 meses de antecedência. Site para compra de ingressos.

Os tours regulares acontecem ao longo de todo dia, e custam 45 złotys (35 para estudantes com menos de 26 anos).

Os grupos de estudo de 6h começam as 9-9:30h, e custam 70 złotys (60 para estudantes com menos de 26 anos). Esse tour vai em prédios que o tour regular não vai.

Como chegar em Auschwitz

Você pode ir de trem, só pegar trem para Oświęcim. O Museu de Auschwitz fica a 2km da estação de trem. A viagem de trem dura de 1:30-2 horas. No site do museu informa que é possível pegar um ônibus da estação de trem até o museu. Nesse ponto o site é muito falho.

Eu entrei nessa de ir de trem, ai quando cheguei na estação de Oświęcim, fiquei cerca de 30 hora esperando e nenhum ônibus passou indicando que ia a Auschwitz (ou tinha e estava escrito em polonês). Resumo da ópera, acabei pegando um taxi, e foi a única vez na minha vida que peguei um taxi na Europa. Mas não tinha outro jeito, quase perdi o horário do meu tour.

Também poderia ter ido à pé da estação ao museu. Seriam cerca de 25 minutos andando (acho essa uma péssima idéia).

Na hora de ir embora, descobri que na frente do museu tinha um ônibus que levava até a Cracóvia. Fiquei com raiva de mim na hora, me senti a maior burra da história. E olha que perguntei a melhor maneira de ir no albergue.

Então considero a melhor forma de ir da Cracóvia a Auschwitz é de ônibus. O ônibus sai da estação MDA (Dworzec MDA) que fica na rua Bosacka, atrás da Estação de Trem da Cracóvia. A viagem dura de 1:30-2h.

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Fonte: Discoverkrakow.com

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Quando ir?

Na minha opinião, as melhores épocas para conhecer a Europa são a primavera e o outono. Não aconselho ir no verão pois precisa andar muito em Birkenau, e no calor deve ser péssimo. E no inverno a neve com certeza vai atrapalhar a visita.

Agora vamos ao passeio propriamente dito!

** ALERTA DE SPOILER: Se você não quiser ver como são os campos por dentro, não role o texto para baixo.

Auschwitz I

Fiz o tour de estudo de 6 horas em inglês. A guia levou o grupo em alguns barracões com muitas fotos, histórias e até pertences dos prisioneiros.

Birkenau pre-selection
Pre-seleção na estação de Birkenau

Esta foto mostra a chegada dos prisioneiros na estação de trem de Birkenau. Formavam 2 filas, a direita os homens aptos ao trabalho, e a esquerda os idosos, mulheres e crianças. Os inaptos ao trabalho, os doentes, eram encaminhados às câmaras de gás.

Quando todos chegavam ao Campo de Concentração, eram estimulados a colocarem nome em suas malas e seus pertences para que posteriormente fossem entregues a eles. O que nunca aconteceria.

named luggage Auschwitz
Malas com os nomes dos donos, que nunca seriam devolvidas

As pessoas encaminhadas às câmaras de gás, recebiam orientação de que iriam tomar banho e desinfecção. Elas deveriam despir toda a roupa, acessórios, e até dentes de ouro, e achavam que pegariam seus pertences após o banho. Entravam todos juntos, homens, mulheres e crianças.

Para as câmaras de gás, os alemães usavam um pesticida à base de ácido cianídrico chamado Zyklon B, que promoviam morte rápida.

Em um outro barracão aprendemos sobre os “uniformes” dos prisioneiros e seus símbolos. Os prisioneiros que eram aptos ao trabalho recebiam um uniforme e uma tatuagem. Todos eram catalogados, com fotos e medidas. Muitos desses registros foram utilizados posteriormente para escolher indivíduos para as pesquisas “médicas” realizadas no Campo.

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Códigos costurados aos uniformes dos prisioneiros e seus significados
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Tatuagem dos prisioneiros eram uma forma de identificar os mortos, que eram muitos.

Muitos experimentos “médicos” ocorreram no campo, de congelamento, de altas altitudes, regeneração de ossos, músculos e nervos. Para saber detalhes dessas atrocidades, tem um livro “Doctors from Hell” de Vivien Spitz. Quando li chorava e ficava deprimida a cada capítulo.

Nessa piscina abaixo, ocorreram experimentos de congelamento e afogamento. A cabeça de gárgula que parece um demônio deixa o lugar ainda mais macabro.

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Piscina no Campo Auschwitz I

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Guarita entre os blocos. Qualquer tentativa de fuga os soldados atiravam para matar.

Apenas os grupos de estudo têm acesso aos blocos 2 e 3 em Auschwitz I, conhecidos como  os blocos reservados. Esses blocos estão mantidos em sua condição original, intactos, desde a liberação do campo pelos soviéticos. Neles visitamos os quartos dos prisioneiros, banheiros. As beliches recebiam palha ao invés de colchões, e dormiam 3-4 pessoas por cama (e não por beliche).

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Colchões de palha
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Em cada cama 3 ou mais prisioneiros
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Lavabo onde as mulheres se despiam antes da execução na parede da morte.

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Parede da morte, onde aconteciam os fuzilamentos. Notem as janelas fechadas com madeira, para não causar pânico nos outros prisioneiros.

Os prisioneiros tinham direito de usar os sanitários e as pias para lavarem-se apenas uma vez ao dia, todos no mesmo horário, sob a supervisão dos guardas. Os sanitários ficavam em um cômodo separado do lavabo. Note o desenho na parede, era para deixar o ambiente mais alegre (oi?).

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Área ao redor do campo com 2 camadas de cercas elétricas.

Câmara de gás e crematório

Inicialmente Auschwitz I era apenas um campo de concentração, então não tinha nenhum aparato para assassinato em massa. Quando começou a funcionar como Campo de Extermínio, foi construída uma câmara de gás, e fornos crematórios para eliminar os cadáveres.

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Câmara de gás vista de fora
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Interior da câmara de gás
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Buraco no teto da câmara de gás por onde jogavam o Zyklon B
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Fornos crematórios

Terminada a visita em Auschwitz I há uma pausa para o almoço. Recomendo que você traga o seu, não tem muita coisa para comprar por lá.

Em seguida, a guia encaminhou o grupo para o ônibus que nos levaria à Auschwitz II (Birkenau).

Auschwitz II – Birkenau

A área de Birkenau é simplesmente gigantesca. Lembre-se de ir com um sapato confortável.

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Prédio principal de Birkenau, com torre de vigilância.

Muito pouco sobrou do imenso campo de extermínio de Birkenau, conhecido como Auschwitz II. Muitos de seus barracões, e especialmente os crematórios e câmaras de gás foram destruídos pelos próprios nazistas antes da invasão da Polônia pelos soviéticos.

Apesar de pouca coisa material para ser vista, a quantidade de história para ouvir aqui é tão grande quanto seu espaço físico. Aqui foram mortas aproximadamente 1 milhão de pessoas.

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Os barracões de madeira dos prisioneiros eram ainda mais rudimentares que os de Auschwitz I. Eram beliches de madeiras, sem qualquer tipo de colchão, e que abrigavam cerca de 5 pessoas por “cama”, se é que dá para chamar aqueles espaços de camas. Os alojados nas “camas” de baixo, dormiam diretamente sobre o chão de terra batida. Imagine o frio que fazia no inverno com muita neve e seu corpo sobre o chão de terra congelante. Muito triste.

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Haviam barracões de madeira só com sanitários, e outros só com pias para que se lavassem. Funcionavam do mesmo jeito que em Auschwitz I, os prisioneiros podiam usar esses barracões uma vez ao dia, em horário pré-determinado, sob a vigilância armada dos guardas da SS.

O grupo de estudo também tem acesso exclusivo a dois barracões em Birkenau, os barracões hospitais B-80 e B-210. Não tirei fotos. #fail.

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Comboio do trem que trazia prisioneiros para o campo

Na área onde funcionava a estação de trem de Birkenau, ainda pode ser visto um comboio do trem que trazia os prisioneiros para o campo. Note que não existem janelas. Também não tinham cadeiras ou bancos em seu interior. Viajavam horas ou dias, as pessoas em pé, amontoadas, sem espaço para sentarem-se nem no chão, sem água, sem banheiro, em condição sub-humana. Na verdade eram carros para transporte de animais, transformados para transportar seres humanos.

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O que ficou para mim deste dia foi um profundo pesar sobre o que os seres humanos são capazes de fazerem uns contra os outros. E um profundo medo de que isso se repita, e vem se repetindo com os atentados terroristas, com a intolerância racial e religiosa em alguns países. A banalização da vida.

Acho muito importante visitar Auschwitz, ou qualquer outro campo de concentração. Algumas pessoas acham um lugar muito pesado, mas eu acho que temos que ver e encarar de frente o que aconteceu. E aprender que tudo isso pode acontecer novamente. Levar no coração a lição de que todos somos iguais.

 

No fundo, por dentro, somos todos iguais, humanos.

 

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Alguma dúvida? Sugestão? Reflexão? Escreve pra mim nos comentários.

 

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35 comentários

  1. Brina
    Visita muito boa sonho em realizá la um dia.Detalhe é que justamente os soviéticos, comunistas,foram quem libertaram os judeus destas coisas,e no Brasil atual,comunistas e capitalistas judeus ou não, vivem quase em guerra.
    Para reflexão, já pensaram se as idéias dos crentes,baseadas muitas delas em Hitler chegam ao poder?Penso nisso todos os dias e a solução será deixar nosso país para eles,que infelizmente, já são maioria em algumas partes,sobretudo nos guetos,que eram tão perseguidos pelo nazismo.

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  2. Querida Sabrina, esse post está imperdível! Além de todas as informações de como realizar a visita, você trouxe dados sobre a história do lugar e fotos que impressionam muito. Não sei se teria coragem de ir até o campo de concentração, mas concordo que ver os erros do passado nos faz refletir e não repeti-los. Parabéns pelo post.

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  3. Embora não seja o tipo de lugar que eu tenha vontade de visitar, acho muito importante que fique aberto para exposição pública É importante que as chagas do passado não sejam esquecidas e locais como esses levam o visitante a refletir quanto o homem pode ser brutal com o próximo. Parabéns pela coragem da visita e por compartilhar tantas informações históricas nesse post.

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  4. Os seres humanos historicamente estão propícios a cometerem os mesmos erros do passado caso com eles não aprendam. Por mais negativa que seja a energia desse lugar, acho que precisa existir, precisamente para que as pessoas entendam o que aconteceu, se enojem e nunca mais voltem a fazer.

    Que energia brutal a das imagens da câmara de gás. Quantas pessoas não morreram ali, achando que tomariam banho… Um buraco no teto para jogar o veneno. Que horror.

    Parabéns pelo post. Tão importante quanto o lugar é que pessoas como você escrevam seus relatos.

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  5. Uau.. muita gente evita conhecer lugares assim… mas acho super válido, são momentos de reflexão e lições que formam nosso caráter. Tenso sim, mas volto a dizer, mto válido. Conheci o museu do holocausto em Israel, mas também quero conhecer esse lugar.

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  6. Concordo com você… Mesmo sendo uma energia tão pesada, é importante conhecermos a história e rezar para que nunca mais se repita. Fui ao campo de Dachau e de Sachsenhausen, ambos na Alemanha. Por uns instantes dá até uma descrença no ser humano.. 😦

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  7. Também sempre me interessei muito por história e quando fui a Alemanha visitei um campo de concentração em Weimar. Foi uma experiência única e acho que é importante conhecer lugares assim para nos lembrarmos da história e nunca mais permitirmos que esse tipo de coisa aconteça. Mas confesso que não é um passeio para qualquer pessoa, pois o ambiente em si já é bastante pesado. Legal você compartilhar a sua experiência com seus seguidores!

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  8. Concordo contigo que a melhor época para conhecer a Europa é ou na primavera ou no outono. Além do calor, você ainda paga mais barato pela passagem aérea e hospedagem. Só na Suíça, que sugiro ir no verão, pois a mudança de temperatura nos alpes suíços é bem significativa nas outras épocas do ano. Mas, voltando para o seu post.. kkk… brigo com o meu eu interior em visitar algum campo de concentração, algum dia. Deve ser uma experiência única, mas sou muito emotiva. Chorei dentro da Casa de Anne Frank, acredita? Tenho vontade de conhecer mais sobre a história da Polônia. Anotei as dias de como chegar lá. Bjus

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  9. Estou aqui um pouco tensa ainda com o seu relato. Acho muito difícil visitar esse lugares, mas concordo com você. Isso faz parte da nossa história e precisamos assumir isso e conhecer e fazer desse momento uma reflexão! Me senti já um pouco assim quando visitei o Museu do Apartheid.
    Também me interesso muito por leitura da segunda guerra e conheço bastante pelos livros. Mas ainda quero conhecer isso pessoalmente um dia

    Curtido por 1 pessoa

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